Terça-feira, Março 21, 2006

Tou velho!!!

Em conversa com um miúdo da actualidade, cheguei a uma triste conclusão:
A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida. E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta. O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer.
"Quem? ", perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer!
Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo?
A própria música: "Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além..." era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim.
Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos:
Ele nunca subiu a uma árvore! E pior, nunca caiu de uma. É um mole.
Ele nunca andou a caçar grilos e pássaros. Nunca entrou numa mina nem tomou banho num tanque.
Ele nunca teve de andar com uma bicicleta maior do que ele por não ter outra, nunca teve de “saltar fora” da bicicleta para parar por não chegar com os pés ao chão.
Ele nunca roubou uma motorizada ao tio e nunca teve de sugar gasolina por uma mangueirinha.
Ele não ía a correr apanhar as canas dos foguetes ainda a fumegar.
Ele nunca foi a uma obra saltar do primeiro andar para um monte de areia. Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra.
Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce.
Aliás, esta juventude nunca fez uma viagem de 300Km sem cinto de segurança e com a cabeça de fora num Renault 5.
Acho incrível que nunca tenham saltado para o atrelado de um tractor em andamento nem nunca tenham feito corridas de escaravelhos.
Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos, nunca fizeram o próprio baloiço, nunca treparam a uma ramada para comer uvas com sulfato.
Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros.
Confesso, senti-me velho...
Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e a fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa a fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído.
Doenças com nomes tipo "Moleculum infanticus" , que não existiam antigamente.
No meu tempo, se um gajo dava um malho (muitas vezes chamado de "terno") nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse.
Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos.
Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo.
Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia e principalmente... de apanhar piolhos.
E sabíamos viver com isso.
Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade? E ainda nos chamavam geração "rasca"...
Nós éramos mais a geração "à rasca", isso sim. Sempre à rasca de dinheiro, sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca a ver se a namorada estava grávida, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro.
Agora não falta nada aos putos.
Eu, para ter um mísero Sega, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto.
Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo.
Com tudo e tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos. Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas. É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada a juventude.
Hoje, se um puto é normal, ou seja, não tem óculos, nem aparelho nos dentes, as miúdas andam atrás dele, anda de bicicleta e fica na rua até às dez da noite, os outros putos são proibidos de se dar com ele... porque “é um mal criado que até parece que não tem pais em casa”.

1 Comments:

Blogger Maria Papoila said...

Pemite-me acrescentar que o pior é a falta de respeito pelos mais velhos!
Eu não me levantava da mesa sem pedir autorização, não desatava aos berros na rua porque queria uma porcaria qualquer, não respondia torto aos meus pais e nem dava pontapés na minha mãe quando ela me mandava estar quieta e calada. Sabes que mais? Os putos de hoje em dia não têm mesmo pais em casa... têm amigos e companheiros, porque é giro e está na moda, mas um pai e uma mãe fazem mesmo muita falta!
Um abraço da Papoila.

1:51 PM  

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